18 de mar de 2013


[Resenha] O Canto da Sereia: Um Noir Baiano - Nelson Motta


Título: O Canto da Sereia: Um Noir Baiano
Autor: Nelson Motta
ISBN: 978-8573-024-82-1
Páginas: 265
Ano: 2002
Editora: Objetiva


Sinopose
O_CANTO_DA_SEREIA__UM_NOIR_BAIANO_1231352742PEsqueça os detetives de outrora, que circulam por ruelas escuras e frias, envoltos em trajes soturnos e enigmáticos. O investigador baiano Agostinho Matoso, o insaciável Augustão, prefere calças brancas e camisas floridas, freqüenta os ensaios do Olodum e nunca enfrentará questões de magnitude com a cara limpa - um cerveja gelada, por favor, uma rede, quem sabe um baseado, Miles Davis e Jorge Benjor, porque há que se matutar, e muito para decifrar o crime que paralisou a cidade. Nunca se viu nada parecido na Bahia. O assassinato da musa do carnaval em plena terça-feira gorda, eletrizou Salvador - quem teria motivos para matar a linda Sereia, que aos 22 anos se tornara uma estrela exuberante do pop nacional? A princípio ninguém, mas a lei do suspense clássico também vigora neste noir baiano: incluindo o mordomo, são todos suspeitos. Plugado no computador, seu bom e velho Macintosh, Augustão vai rastrear a vida dos principais envolvidos nesta trama insólita. Os criadores de Sereia, seus produtores artísticos, a fiel empresária, o chefe político local, a mãe-de-santo mais poderosa da Bahia - a vida de cada um será vasculhada pelo sagaz investigador, capaz de cometer deliciosas irresponsabilidades para atingir seus objetivos.


Resenha

Noir é um estilo derivado do suspense proveniente do final da década de 20 e do início da década de 30, que é atrelado a narrativa policial. Em “O Canto da Sereia” iremos nos deparar com o segurança e detetive Agostinho Matoso, o Augustão. Nessa história repleta de mistério, iremos mergulhar na cultura da Bahia, em suas ruas, suas crenças, em sua música e principalmente na vida de sua musa. Apesar de Sereia ser uma personagem fictícia, não têm como não associá-la as grandes cantoras do Axé contemporâneo.

No último dia de Carnaval, debaixo de uma chuva, a loira mais popular da Bahia e grande estrela em ascensão, é assassinada em cima de seu trio elétrico. Ninguém viu o atirador e nem ouviu nada, e como um foguete que deveria ir rumo aos céus, Sereia, a jovem cantora de 22 anos que tinha tudo para ganhar o mundo, desaba na frente do seu público, tendo sua voz calada na maior festa de rua do planeta.
Cantando e dançando ainda mais animada, a cantora quis ficar na chuva. Deslizava voluptuosamente as mãos sobre os seios e a barriga cobertos de purpurina prateada, misturando a água da chuva ao seu suor, descia pela cintura e pelas finas escamas da malha metálica que se colava aos seus quadris e coxas, cobria suas pernas e descia até o chão como um rabo de peixe.
Pág. 15
A Bahia simplesmente entra em choque, uma de suas filhas mais amadas foi morta, a alegria do povo é tomada pela tristeza e o som alto dos trios é trocado pelas vozes roucas dos cantores que homenagem Sereia, cantando suas músicas naquilo que outrora foi chamado de Carnaval. Inicia-se então uma busca para descobrir quem matou Sereia. Quem seria capaz de matar tão bela jovem de maneira tão fria? Augustão vai em busca de todos os contatos da cantora, irá revirar seu passado, seu presente e até mesmo o provável futuro que a moça teria, caso ainda estivesse viva. Em um círculo onde fama, política e religão se misturam, todos são suspeitos, desde Mara Moreira, a empresária de Sereia, até Mãe Marina, mãe de santo do terreiro mais frequentado da cidade.

Aos poucos, pequenas partes do quebra cabeça são descobertos, como a arma do crime e o local do disparo. Mas cada vez mais Augustão vai se deparando com um passado desconhecido de Sereia, através dos depoimentos colhidos pela polícia e por ele mesmo, percebendo o tanto que a fama pode afetar à vida de uma pessoa. Desta maneira, a cada nova informação que chega as suas mãos, Augustão vai aumentando a lista de suspeitos, pois aparentemente nos últimos meses muitas pessoas tinham se desentendido com Sereia. A pergunta era: porque sua morte era necessária? Vingança? Ciúmes? Queima de Arquivo?
[…] Um crime assinado… só na Bahia. Que coisa louca, parece até que ele quer ser apanhado, deixando rabo, ou então é um maníaco de boa pontaria, um vaidoso mórbido que quer deixar sua marca, como um grafiteiro… Coisa de profissional… mas aí jamais iria deixar seu instrumento de trabalho na cena do crime. Muito estranho mesmo.
Pág 47
No decorrer da história iremos conhecendo melhor a vida de Sereia, quem ela era e como se tornou a grande estrela da música nacional. Apesar disto, ela não é nada mais do que um objeto em comum entre os demais personagens, uma coadjuvante. A grande personagem da história mesmo é o detetive, que permeia entre todos os cenários em busca da solução do crime. Eventualmente ele descobre quem matou Sereia, o motivo e todos os fatos pré-assassinato. Porém, até chegar lá muita coisa acontece, incluindo muitas revelações nos fins de cada capítulo para despistar cada vez mais o leitor do verdadeiro assasino.

Nelson Motta apesar de ser paulista, mergulhou como ninguém nas raízes baianas. Ele é jornalista, compositor, escritor, produtor musical e letrista brasileiro, sendo bastante famoso e reconhecido pelo seu trabalho. "O Canto da Sereia" é sua primeira ficção, e acredito que sua pesquisa de campo foi bastante intensa, já que para narrar com veracidade os fatos do livro, precisa-se conhecer como ninguém a cidade de Salvador, desde os nomes das ruas, dos prédios, dos restaurantes e dos pontos turísticos como a Praça Castro Alves e o Farol da Barra.
Peguei o primeiro táxi e logo estava na Baixa do Sapateiro, em frente ao escritório. Nove e meia da noite, janelas abertas, tudo aceso, som alto. Do outro lado da rua o Cine Tupy passava dois filmes de sexo explícito por sessão desde as dez da manhã, à sua direita ficam a Poliana Calçados, o Mundo do Bebê e um grande templo da Igreja Universal do Reino de Deus.
Pág. 77
Transformada em minissérie pela Rede Globo no começo de Janeiro, “O Canto da Sereia” fez tanto sucesso que pretende-se lançar um filme sobre ela (uma extensão da própria minissérie), já que para a televisão muitas cenas, apesar de terem sido gravadas, tiveram que ser cortadas da versão final.

"O Canto da Sereia" é uma boa obra: sua escrita relembra um pouco o acervo do grande Jorge Amado, os personagens são bem construídos, a riqueza de detalhes da narração é impecável (eu como baiano, posso dizer que Salvador é fielmente descrita nas páginas), o mistério da trama prende e apesar de ter achado o final da minissérie melhor, o livro consegue surpreender. Ou seja, se você ainda não viu a adaptação Global, leia primeiro o livro pois o corpo da história é bem parecido, fazendo com que quem irá ver a série primeiro, tenha somente a surpresa de um assassino diferente ao ler o livro.
A vida de Sereia foi um milagre, ter saído de onde saiu e chagado aonde chegou. E sua morte foi o avesso de um milagre, mas do mesmo tamanho e da mesma força, atingindo-a no auge da juventude e da fama. [...] O tempo dela seria pouco, mas de grande intensidade, estava no mapa, no tarô e nos búzios. Estava nos olhos dela.
Pág. 154

Trailer da Minissérie



3 livros

Tácio
Comentários
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10 comentários:

  1. Posso dizer que detestei a capa? Eu não cheguei a ver a mini série, embora eu tenha ouvido falar muito bem.

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    1. Sério? Eu achei a capa lindíssima, essa foto não faz justiça. Ela é toda no estilo pop art e têm um colorido que lhe dá vida.

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  2. Parabéns pela resenha!
    É a primeira vez que leio uma resenha desse livro e eu o achei bastante interessante! Parece ser um mistério muito bom. Não assisti a minissérie, então vou tentar ler o livro primeiro, como você recomendou!
    Gostei dessa capa estilo pop art! =)

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    1. Também gostei da capa. Ela é muito linda ao vivo, brilhante, e o amarelo e o vermelho são bem vivos. E toda a lateral das páginas e na cor preta, sem contar na folha que é grossa. Capricharam demais na apresentação do livro.

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  3. Não vi a série, mas um estraga prazer fez o favor de me contar o final dela e do livro (ele também acho o final da série melhor). Então não acho que eu vá ler o livro, a melhor parte desse gênero é o mistério, mas tiraram isso de mim :(

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  4. Eu gostei da capa e é a primeira resenha do livro que vejo.
    Não pude assistir a minissérie, mas gostei a resenha e me interessei em ler, fiquei curiosa, gosto de leituras assim.

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  5. Essa é a primeira resenha que li do livro e gostei!!
    Quando eu vi a minissérie, fiquei curiosa em relação ao livro, mas depois passou, agora fiquei interessada no livro navamente!!

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  6. Eu não assisti a minissérie e me arrependo muito. :( Sério que são assassinos diferentes entre o livro e adaptação? Que nada a ver! Acho que tem certas coisas que nao da pra mudar e isso é uma delas.

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  7. Tácio,parabéns pela resenha!
    Assisti na tv,adorei o clima de mistério,o cenário mergulhado na cultura baiana,o enredo intrigante e mais ainda do desfecho.
    Nelson Motta realmente deu seu recado de uma forma inteligente e com engenhosidade,sem pontas soltas,personagens interessantes.

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  8. Não assisti a minissérie, mas tenho muita vontade Isis Valverde sabe atuar, é a primeira resenha que leio sobre o livro, vou tentar ler o livro primeiro como você indicou, deve ser uma história realmente interessante e além disso vai virar filme, gostei do mistério da história, as chamadas da minissérie, também eram muito boas.

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