29 de jul de 2017


[Resenha] O Caminho de Casa - Yaa Gyasi

Ficha Técnica

Título: O caminho de casa
Título Original: Homegoing
Autor: Yaa Gyasi
ISBN: 978-85-325-3059-2
Páginas: 443
Ano: 2017
Tradutor: Waldéa Barcellos
Editora: Rocco

Nascida em Gana e criada nos Estados Unidos, a jovem Yaa Gyasi tornou-se um dos nomes mais comentados na cena literária norte-americana em 2016. Seu romance de estreia, O caminho de casa, recebeu resenhas estreladas dos mais importantes jornais e revistas do país, alcançou a disputada lista dos mais vendidos do The New York Times, foi incluído na prestigiosa lista dos 100 livros notáveis do ano do mesmo jornal e arrebanhou o prêmio PEN/Hemingway de melhor romance de estreia. Com uma narrativa poderosa e envolvente que começa no século XVIII, numa tribo africana, e vai até os Estados Unidos dos dias de hoje, Yaa mostra as consequências do comércio de escravos dos dois lados do Atlântico ao acompanhar a trajetória de duas meias-irmãs desconhecidas uma da outra, e das gerações seguintes dessa linhagem separada pela escravidão.

Resenha

Um dos melhores livros que li em 2017. O caminho de casa é o romance de estreia da jovem escritora Yaa Gyasi e traz a história de duas irmãs separadas por uma tragédia e vítimas do sistema mais cruel e perverso: a escravidão.

Effia e Esi são irmãs que nunca se conheceram, foram criadas por mulheres diferentes, em aldeias diferentes e, desde a infância, já conviviam com o pior lado do ser humano. O lado tóxico, aquele lado que mostra como o poder pode ser usado para dominar, exterminar, humilhar e subjugar pessoas. O destino dessas duas irmãs traça todo o curso da narrativa.
No Barco Grande, Esi dizia, eles eram postos em pilhas de dez pessoas, e quando um homem morria em cima de você, seu peso esmagava a pilha, como cozinheiros esmagando alho. p. 111
Effia teve poucos momentos de alegria e esperança desde o seu nascimento. Criada por uma mulher que não tinha afeto para dar a garota e que planejou o seu futuro sem se importar com as consequências de seu ato, Effia foi vendida para um homem branco para ser a sua esposa. Uma esposa em terra africana, já que esse mesmo homem já tinha compromisso com outra mulher em seu país de origem. A personagem percebe - ainda que não crie resistência - que faz parte de uma negociação. Ela foi trocada por dinheiro, assim como a sua irmã foi sequestrada para virar escrava. O tráfico de pessoas negras também se dava a partir de negociações de tribos com homens brancos. E Effia foi uma das vítimas desse acordo.

Esi, diferente de Effia, teve uma infância com muito amor e alegria. A tragédia cruza o caminho de Esi quando a menina decide ajudar uma mulher que se tornara sua criada. A crueldade também partia de uma tribo para outra. Numa guerra, a tribo subjugada tinha o destino da escravidão. Após a ajuda, Esi é levada para um calabouço, é violentada, sobrevive a condições desumanas e é obrigada a endurecer depois de ser tão castigada pela vida.
Você quer saber o que é fraqueza? Fraqueza é tratar alguém como se pertencesse a você. Força é saber que cada pessoa pertence a si mesma. p. 63
Os capítulos de O caminho de casa são alternados e narram as histórias de diferentes personagens mas que estão entrelaçadas. Todos as personagens tem ligação com Effia e Esi, seus descendentes - desde o início da escravidão - sofrendo os males de uma sociedade dominada pelo racismo. Uma sociedade do século XVIII e que se assemelha a sociedade atual. Corpos negros trocados, vendidos, maltratados, violentados e mortos. As oportunidades que não existem, o trabalho desumano, a falsa liberdade aos ditos "escravos libertos" mas sem nenhuma perspectiva. As feridas abertas da escravidão que permanecem abertas em pleno século XXI. É impossível ler O caminho de casa e não pensar em como o negro é tratado na sociedade atual, e, trazendo para nossa realidade, como ele é tratado no Brasil.

Yaa Gyasi mostra em cada capítulo personagens que são o reflexo da escravidão, personagens oprimidos, reduzidos a nada e nem sempre através dos grilhões. São milhões de pessoas reduzidas a mercadorias, que tiveram suas vidas tomadas, que ainda tem suas vidas tomadas devido ao sistema escravocrata. Cicatrizes físicas e emocionais de um povo açoitado, torturado e obrigado a servir. Como não relacionar os calabouços que jogaram Esi com o sistema prisional brasileiro que "abriga" tantos corpos negros? Como não lembrar da desigualdade racial latente em nosso país? Impossível não lembrar da taxa assustadora de homicídios a jovens negros no Brasil. O caminho de casa nos remete a uma realidade cruel e que ao longo dos anos assumiu diversas formas. É um livro atual e que serve como lembrete como ainda estamos longe de uma igualdade racial. Livro recomendado e essencial.
Eles simplesmente trocariam um tipo de grilhões por outro: trocariam as correntes físicas enroladas nos pulsos e tornozelos pelas correntes invisíveis que envolviam a mente. p. 145 
Saraiva | Fnac | Livraria Cultura
Comentários
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7 comentários:

  1. Auri!
    A escravidão sempre foi um assunto sério a ser abordado e ver que o livro mostra a realidade e as consequências dela até a atualidade, deve ser um livro fabuloso mesmo. Importante lermos livros que abordem o assunto e que possamos discutir sobre ele, porque ainda existe a escravidão espalhada pelo nosso país.
    Bom final de semana!
    “Ciência é conhecimento organizado. Sabedoria é vida organizada.” (Immanuel Kant)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE JULHO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

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    Respostas
    1. Rudy!
      O livro é excelente e aborda assuntos seríssimos com o cuidado necessário. Gosto de livros que nos transformam após a leitura e esse foi um deles, com certeza.
      Beijos!

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  2. Fiquei curiosa em ler este livro após você ter achado um dos melhores livros lidos por você neste ano, a história parece ser bem comovente, de duas irmãs separadas pela escravidão, que aborda diversos assuntos como a desigualdade racial e que remete a uma realidade cruel, sem duvidas pretendo ler este livro, como você citou em sua resenha é uma leitura essencial.

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  3. Hey,

    Nunca li nada com a temática, e depois dessa resenha fiquei mega curiosa para ler o livro.

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  4. Olá!
    Aoler a resenha, fiquei, tipo "Gente que historia horroziante". Sabe o tema que são abordado no livro realmente são coisas que muitos negro passa por isso ainda, mesmo sendo na atualidade. A historia desse livro realmente parece ser real, porque escravidão são historia que já ouvimos há muito tempo e não importa em que seculo estamos ou estaremos sempre haverá esse pequeno preconceito, escravidão, morte por pessoas dessa cor, amei o livro tem uma historia bastante interessante e incrivel.

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  5. Parece ser uma história chocante, porém não sei se teria coragem de ler agora, não neste momento. Tem dias que prefiro ler livros pesados, mas tem dias que prefiro ler livros mais leves.

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