19 de ago de 2017


[Cinema] Planeta dos Macacos: A Guerra

Eu nunca vou me conformar com o fato do Andy Serkis nunca ter ganhado um Oscar. O fato do trabalho dele com captura de performance ser esnobado em tantas premiações importantes chega a ser revoltante. Apesar do visual do personagem ser criado por computação gráfica, a atuação é toda obra do Serkis. Está tudo lá: expressões faciais, gestos, voz. Todo o talento dele, que já era conhecido pela interpretação de Gollum em O Senhor dos Anéis, fica ainda mais evidente na trilogia Planeta dos Macacos. 

No terceiro e último filme da trilogia (que serve como reboot e prequel da série antiga, iniciada com Planeta dos Macacos em 1968 e que é baseada no livro de Pierre Boulle), acompanhamos a saga da tribo de Caesar, que vimos crescer e evoluir nos filmes de 2011 e 2014. O grupo é atacado por soldados e seguidores de Koba (o bonobo raivoso do filme anterior) e decide migrar para um deserto avistado por Olhos Azuis. Lá eles vão poder escapar da perseguição dos humanos sobreviventes do vírus que originou a mutação deles. Na noite antes da partida, o acampamento é atacado por soldados rebeldes de uma facção chamada Alpha-Ômega. Quando o ataque causa perdas irreparáveis, Caesar resolve ir atrás do líder dos soldados (e eu podia passar o dia inteiro assistindo Woody Harrelson sendo maligno). 


Apesar de ser uma série de ação, este é um capítulo mais introspectivo, mais calmo que os anteriores. Aqui, o filme faz pausas para mostrar os horrores do conflito entre humanos e símios. Seus personagens parecem tão humanos que é fácil esquecer que essa é uma história de ficção científica e encará-la como mais um filme de guerra. É possível traçar muitos paralelos entre o que os macacos sofrem (fome, trabalhos forçados, extermínio) com o que foi infligido a humanos em outros momentos da História. Eles são tratados não como animais, mas como um grupo de humanos indesejado e inferiorizado. A referência a momentos históricos fica ainda mais óbvia quando Caesar descobre que o Coronel ordenou a construção de um muro ao redor do acampamento e alguém comenta que o muro “é uma loucura” (não, filme, essa alfinetada no Trump não foi tão sutil quanto você acha que foi). 

“O que é ser humano?” é um dos questionamentos recorrentes no filme. Somos mesmo uma espécie superior? O que fazemos com outras espécies é justificado? A inversão de papéis é quase absoluta: vemos macacos agindo como humanos e humanos se comportando como animais sedentos de sangue.  
A outra pergunta que permeia o longa é: Caesar vai se deixar consumir pelo ódio, como Koba? Eu não vou negar que Koba tinha lá suas razões para odiar humanos. Não dá pra esperar que um grupo que sofreu atrocidades simplesmente perdoe seus algozes de uma hora pra outra. Koba é o Magneto dessa história, o líder que estão disposto a fazer os humanos pagarem por tudo o que fizeram, fazendo uso de força se necessário. E Caesar é o líder pacífico nos moldes de Charles Xavier, que só quer proteger seu povo e viver em paz. 


A atuação de Andy Serkis como Caesar é fenomenal. É importante deixar claro que o trabalho dele não envolve captura de movimentos, um processo que já existia há muitos anos e envolve apenas linguagem corporal, mas sim captura de performance. O que ele faz envolve atuação em todos os níveis: movimentos, expressões faciais e voz. Essa atuação completa é “copiada” e transferida para o corpo de um personagem digital. Serkis se tornou pioneiro no processo e é tão reconhecido por ele que a produção montou um acampamento para que ele pudesse ensinar os outros atores a interpretar os símios do filme. 

Caesar parece cansado. Foram anos de luta apenas para existir. Esse esgotamento físico e toda a dor emocional de perder família e amigos ao longo dos anos ficam evidentes nas expressões de Serkis. De todos os atores do filme, ele é certamente o mais talentoso e dedicado. Nesse vídeo, ele explica como foi o processo de desenvolver a fala do personagem. 

Toda essa dedicação é usada a favor de um roteiro mais focado em reflexão do que em cenas de batalha. As emoções dos personagens são expressadas através de linguagem corporal, expressões faciais e língua de sinais (um recurso que se prova muito útil lá pela metade do filme). O visual dos símios é extremamente convincente, sendo até difícil lembrar que eles não são macacos de verdade. Um detalhe que me chamou a atenção é o brilho no pelo do Caesar em umas das cenas: a animação do brilho da água no pelo dele é tão bem feita que parece cabelo de verdade. Os efeitos visuais são primorosos e em pouquíssimas cenas dá pra perceber que os personagens são digitais. 


Os coadjuvantes são carismáticos e é muito interessante ver como eles enxergam Caesar e como as ações dele inspiram os outros. Todos eles são de espécies diferentes e tem personalidades distintas. Maurice (o orangotango), que no filme anterior tinha assumido a posição de professor, é o mais racional do grupo e tem um jeito mais paternal que os outros. Rocket (o chimpanzé) é mais belicoso e determinado. Já Macaco Mau (outr chimpanzé) ainda tem medo de contato com humanos e uma personalidade menos séria. Luca demonstra ser gentil e bondoso apesar de ser um guerreiro. Cada um deles recebe atenção especial do roteiro e tem a chance de mostrar que é mais que um simples primata. 

A menininha muda serve como conexão entre os macacos e o que ainda resta de bom nos humanos. Ela é sensível, aprende com eles e ajuda em seus planos. É através dela que descobrimos o que está acontecendo com as pessoas. Essa subtrama é o que move o Coronel, interpretado pelo Woody Harrelson. O ódio que ele sente dos macacos é irracional mas ele não me inspirou tanto desprezo quanto Preacher, o soldado. 


Eu só senti falta da conclusão de uma questão pessoal do Macaco Mau, que foi mencionada mas não resolvida, e de um alongamento na cena final, mostrando o desenvolvimento da comunidade primata. 

Com uma trilha sonora empolgante (que já se impõe ao modificar a música do logo do estúdio) e uma fotografia belíssima, Planeta dos Macacos: A guerra é uma excelente conclusão para a trilogia. Resta saber se a série vai continuar e se o Andy Serkis vai ser finalmente reconhecido por esse trabalho. De uma a cinco conclusões de trilogia, o quanto eu gostei desse filme:

Comentários
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8 comentários:

  1. Oi Tamy, Planeta dos macacos não é uma história que me atraia, tanto que nem sabia que esse filme era continuação de outros dois filmes lançados em 2011 e 2014, mas curti muito o post falando mais do filme e achei interessante saber que Andy Serkis é um pioneiro nessa atuação que envolve captura de performance, que eu não sabia o que era haha.

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  2. Nunca vi e não sei se vou ver!
    Nunca me senti atraída para assisti esses filme, a história n~
    ao me atrai nenhum pouco.
    Mas sei que tem muita gente que gosta. Vou ver se no futuro mudo de opinião.

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  3. Tamy!
    Sempre torço pelos macacos...kkkkk
    Quero demais poder ir assistir e acompanhar essa guerra entre humanos irracionais e macacos mais racionais.
    Deve ser uma super produção...
    Bom final de semana!
    "...Aceite com sabedoria o fato de que o caminho está cheio de contradições. Há momentos de alegria e desespero, confiança e falta de fé, mas vale a pena seguir adiante..."(Paulo Coelho)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE AGOSTO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

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  4. Eu já cheguei a ver um filme da série, mas faz um bom tempo. Apesar de no começo não ter me interessado muito, ando mudando de ideia e sua resenha pesou a favor disso. Eu gosto muito de obras que tragam esse lado reflexivo sobre o que significa ser humano, e todas as outras questões que esse questionando traz. Acho que nesse filme, seria impossível não torcer para Cesar e os outros macacos, que sofreram tanto.
    A qualidade dos efeitos especiais, que eu só pude ver por trailers, é realmente muito boa. Mesmo tendo visto pouco, é perceptível que toda a produção da equipe se esforçou a fazer tudo da forma mais real possível.
    E sempre há aqueles que pensamos: como não ganhou um Oscar? Mas o que podemos fazer fora ficar torcendo, não é?
    Adorei a resenha.
    Abraços

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  5. Oi Tamy
    tô me sentindo uma besta, eu n sabia que o Andy Serki era o Caesar!!!
    Genteee, sério, tô mt decepcionada cmg msm kkkkkkkkkkkk
    ainda n pude ir conferir o novo filme, mas tô qrendo mt

    Bjoooos
    muitospedacinhosdemim.blogspot.com.br

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  6. Hey!
    Confesso que já tentei assistir um filme da série mas não me empolguei e nem cheguei ao final.
    Ele tem vários efeitos e é muito bem desenvolvido só que não é o meu tipo de livro...

    Bj

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  7. Hey,

    Apenas assistir 1 Planeta dos macacos, para ser sincera nem sabia que era uma trilogia mas eu até gostei do filme, então pretendo ver esse e o outro.

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  8. Olá!
    Confesso que nunca assistir esse filme, acho que porque não me chama muito atenção, a historia e bem interessante, uma forma de mostra o mundo dos macacos e algo legal. Espero que possa me agrada mas na frente esse filme!

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