20 de out de 2017


[Resenha] Ninguém Nasce Herói - Eric Novello

Ficha Técnica 

Título: Ninguém Nasce Herói
Autor: Eric Novello
ISBN: 978-85-5534-042-0
Páginas: 384
Ano: 2017
Editora: Seguinte
Num futuro em que o Brasil é liderado por um fundamentalista religioso, o Escolhido, o simples ato de distribuir livros na rua é visto como rebeldia. Esse foi o jeito que Chuvisco encontrou para resistir e tentar mudar a sua realidade, um pouquinho que seja: ele e os amigos entregam exemplares proibidos pelo governo a quem passa pela praça Roosevelt, no centro de São Paulo, sempre atentos para o caso de algum policial aparecer. Outro perigo que precisam enfrentar enquanto tentam viver sua juventude são as milícias urbanas, como a Guarda Branca: seus integrantes perseguem diversas minorias, incentivados pelo governo. É esse grupo que Chuvisco encontra espancando um garoto nos arredores da rua Augusta. A situação obriga o jovem a agir como um verdadeiro super-herói para tentar ajudá-lo — e esse é só o começo. Aos poucos, Chuvisco percebe que terá de fazer mais do que apenas distribuir livros se quiser mudar seu futuro e o do país.

Resenha


O timing desse livro é impressionante. Num momento político tão complicado, é até um pouco chocante ver tantos dos nossos medos impressos no papel.

O livro não é tanto uma distopia quanto é um cautionary tale (conto de advertência, em tradução livre), uma expressão usada para classificar histórias em que coisas ruins acontecem e que podem ser usadas como advertência para o futuro. Um dos contos de advertência distópicos mais famosos é O conto da aia, de Margaret Atwood (que toda mulher deveria ler). Em Ninguém nasce herói, Eric Novello nos avisa dos perigos de misturar religião e política e de como a ascensão de certos grupos religiosos ao poder é nociva para a sobrevivência de pessoas que fazem parte de grupos minoritários.

Imagine que um político que passava despercebido consegue chegar à presidência e implantar uma série de medidas que agradam grupos de fanáticos religiosos mas que dificultam a vida de mulheres, negros e LGBTs. Imagine que é implantada uma ditadura não-oficial e que pessoas são sequestradas, espancadas e mortas por uma milícia que tem o aval do governo. Imagine que certos livros são proibidos e o simples ato de distribuí-los pode te levar para a cadeia. É nesse cenário de medo e incerteza que somos jogados logo nos primeiros capítulos.

Chuvisco e seus amigos compõem um grupo étnica e sexualmente diverso que, apesar de pequenos atos de rebeldia (como distribuir livros proibidos), tenta passar despercebido pelos agentes do governo. O que fica muito mais difícil quando Chuvisco vê um grupo espancando um rapaz e intervém, o que já seria encrenca o suficiente se ele não tivesse catarses criativas. As catarses são episódios em que ele se desconecta da realidade e sua imaginação se sobrepõe, fazendo com que ele tenha alucinações extremamente realistas. A busca pelo rapaz depois do incidente vai fazer com que ele repense seu papel nesse cenário político ao mesmo tempo em que tenta ter um controle maior sobre as catarses.

A procura pelo rapaz que ele conheceu num momento de horror esbarra tanto na existência de um grupo de oposição (a Santa Muerte) quanto nas personalidades de seus amigos, que tentam protegê-lo e ajudá-lo, cada um à sua maneira. É interessante ver como os temperamentos distintos fazem eles reagirem de forma conflitante, apesar de verossívil, ao que acontece com o protagonista. Meu personagem favorito é o Pedro, tanto pelo carisma quanto pela paixão com que ele reage aos acontecimentos (suspeito que ele seja do  mesmo signo que eu).

A leitura do livro é rápida e interessante, apesar de algumas passagens não serem exatamente agradáveis. O sentimento que fica é de que a gente precisa se mobilizar pra não deixar o livro acontecer, de que essa história existe pra que a gente aprenda a combater o que ela representa.

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Comentários
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3 comentários:

  1. Tamy!
    Muito bom ver que o autor criou uma nova realidade para nosso país, que diga-se de passagem, não gostei nadinha, e a analogia com as crises que vivemos, torna o livro até crível, embora seja uma fantasia bem alucinatória, não é não?
    Sempre bom conhecer um novo escritor nacional e que escreve com qualidade.
    Desejo um ótimo final de semana!
    “É melhor saber coisas inúteis do que não saber nada.” (Sêneca)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE OUTUBRO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

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  2. Oi Tamy
    Apesar de parecer bem interessante, n me despertou o interesse em ler!

    Bjooos
    muitospedacinhosdemim.blogspot.com.br

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  3. Já havia visto algo sobre o livro e o autor, e gostei muito de ser nacional.
    Tem uma sinopse bem interessante, com assuntos bem atuais até e parece ser realmente um livro para se refletir.
    Gostei do fato do personagem ter catarses criativas, creio que dá um toque à mais na trama.

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