4 de mar de 2018


[Resenha] Me Chame Pelo seu Nome - André Aciman

Ficha Técnica 

Título: Me Chame Pelo seu Nome
Título Original: Call me By Your Name
Autor: André Aciman
ISBN: 978-85-510-0273-5
Páginas: 287
Ano: 2018
Tradutor: Alessandra Esteche
Editora: Intrínseca
A casa onde Elio passa os verões é um verdadeiro paraíso na costa italiana, parada certa de amigos, vizinhos, artistas e intelectuais de todos os lugares. Filho de um importante professor universitário, o jovem está bastante acostumado à rotina de, a cada verão, hospedar por seis semanas na villa da família um novo escritor que, em troca da boa acolhida, ajuda seu pai com correspondências e papeladas. Uma cobiçada residência literária que já atraiu muitos nomes, mas nenhum deles como Oliver. Elio imediatamente, e sem perceber, se encanta pelo americano de vinte e quatro anos, espontâneo e atraente, que aproveita a temporada para trabalhar em seu manuscrito sobre Heráclito e, sobretudo, desfrutar do verão mediterrâneo. Da antipatia impaciente que parece atravessar o convívio inicial dos dois surge uma paixão que só aumenta à medida que o instável e desconhecido terreno que os separa vai sendo vencido. Uma experiência inesquecível, que os marcará para o resto da vida. Com rara sensibilidade, André Aciman constrói uma viva e sincera elegia à paixão, em um romance no qual se reconhecem as mais delicadas e brutais emoções da juventude. Uma narrativa magnética, inquieta e profundamente tocante.

Resenha

Hoje é dia de Oscar, e para celebrar o evento, a resenha tinha que ser de um livro que inspirou um dos nomeados ao prêmio deste ano. “Me Chame Pelo seu Nome” é uma obra intimista do autor André Aciman – recentemente confirmado na Flip 2018 –, que foi adaptada para os cinemas ano passado sob a direção de Luca Guadagnino e roteiro de James Ivory.

Com quatro indicações na premiação de hoje, incluindo as categorias de Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado, “Me Chame Pelo seu Nome” acompanha um verão do jovem Elio, em meados da década de 80, em uma cidadezinha na Itália. Todos os anos o pai de Elio, que é um professor universitário e pesquisador, recebe um estagiário para lhe ajudar nas pesquisas e documentações de artefatos. Neste ano em especial, o aprendiz é o norte-americano Oliver, rapaz de aparência encantadora e absurda inteligência, que chama instantaneamente a atenção de Elio.

Primeiramente, há repulsa. Elio não gosta dos intercambistas, pois estes ocupam seu quarto, e ele precisa se mudar para outro ambiente da casa. Sendo assim, cada atitude de Oliver é um motivo para Elio questionar a sua presença ali, chegando ao ponto de afirmar aos seus pais que não aguentará o rapaz pelas 6 semanas seguintes. Mas, o tempo vai passando, e alimentado tanto pelo intelecto de Oliver, quanto por seu desprezo, Elio percebe que está sentindo algo. E, independentemente do que seja este "algo", ele sabe que não vai conseguir ignorará-lo.

O que eu queria? E por que eu não sabia o que queria, mesmo quando estava pronto para ser direto em minhas confissões?
Talvez eu quisesse que ele ao menos falasse que não havia nada de errado comigo, que eu não era menos humano que qualquer outro cara da minha idade. Eu teria ficado satisfeito e não pediria mais nada, se ele simplesmente se abaixasse para recolher a dignidade que eu tinha lhe entregado com tanta facilidade.
P. 40

Neste romance, que é movido basicamente a base de desejos e insinuações, vamos ver Elio descobrir o amor, em sua forma menos polida possível, com abertura para os altos e baixos e também para o que há entre esses dois extremos. “Me Chame Pelo seu Nome” instiga, provoca e incomoda, e se engana quem achar que o motivo é pelo fato das personagens principais possuírem o mesmo sexo, a verdade é que é raro encontrar uma história que trata o amor de uma forma tão passional e intensa como esta. Etimologicamente falando, a obra de André consegue condensar as quatro formas de amor utilizadas no grego antigo, indo do storgé (afeição) ao érōs (amor romântico), passando pelo philos (amizade) e retornando ao agapē (amor).

Sem capítulos e dividido em 4 partes, “Me Chame Pelo seu Nome” remete a escrita de um diário, apesar de não utilizar desta técnica. Porém, seu estilo é tão pessoal e direto – e também um pouco confuso –, que somente quem está vivendo aquilo conseguiria de fato entender o peso daquelas palavras escritas no papel.

Não queria prazer. Talvez nem mesmo quisesse provas. E não queria palavras, conversas bobas, conversas importantes, conversas sobre bicicletas, sobre livros, nada disso. Só o sol, a grama, a brisa do mar e o cheiro do seu corpo emanando do seu peito, seu pescoço, suas axilas. Apenas me pegue e me molde, me vire do avesso, até que, como um personagem de Ovídio, eu e sua luxúria sejamos um só, era isso que eu queria. Coloque em mim uma venda, segure minha mão e não me peça para pensar – você pode fazer isso por mim?
P. 97

Ironicamente, apesar de ter uma narrativa mais escrachada, o livro também consegue abusar da subjetividade, explorando questionamentos e palavras não ditas, que ficam suspensas no imaginário tanto das personagens, quanto de nós leitores. E há algo muito curioso nisso…

Eu primeiramente vi o filme, depois li o livro, e logo após revi o filme com o olhar mais voltado para os detalhes. Foi surpreendente ver com o trabalho de adaptação foi impecável em conseguir transparecer essa subjetividade, seja através da adição de uma mera palavra, um gesto ou até mesmo um olhar. Simplesmente fantástico. Bom também apontar que todo a cerne do livro, cada fala chave, cada movimento importante foi transposto para tela, e que houve a inteligência de se retirar aquilo que não agregaria no quadro geral, mesmo fazendo com que o final das obras fossem diferentes entre sí. E por incrível que pareça, a única parte do livro que não me agradou, não está no filme, e fico feliz em dizer que não fez falta alguma – e neste caso, não é o desfecho, já que ambas conclusões, cada uma com sua peculiaridade, são de tirar o fôlego.

Como soldados que treinam para o combate à noite, eu vivia no escuro para não ficar cego quando a escuridão chegasse. Ensaiar a dor para anestesiá-la. Homeopaticamente.
P. 244

Já que citei o filme, vamos falar rapidamente dele. Sem dúvidas, “Me Chame Pelo seu Nome” ficou no meu top 3 de obras este ano, e além das indicações já citadas, o filme também concorre na categoria de Melhor Ator, pela excelente atuação de Timothée Chalamet no papel de Elio, e Melhor Canção Original com a belíssima “Mystery of Love”, composta e performada pelo cantor Surjan Stevens. A única chance real do filme levar uma estatueta é na categoria de Melhor Roteiro Adaptado, e apesar de achar que “Mystery of Love” é superior as demais canções, acredito que a estatueta vá ou para "O Rei do Show" ou para "Viva - A Vida é uma Festa"




Queria falar rapidamente das personagens principais, pois as mesmas são bem peculiares, tanto no livro quanto no filme. Elio, com sua inocência e suas boas intenções, conquista o leitor rapidamente, principalmente pelo fato de ser o narrador de sua própria história. Porém, o mesmo em alguns momentos se mostra egocêntrico e confuso demais, características que ajudam a construir sua humanidade, mas que incomodam. Já Oliver, é um caso muito complicado. Fechado, o tanto quanto rude e muitas vezes frio – apesar de ter seus motivos –, Oliver criou em mim uma aversão assim que surge na narrativa, e acredito que essa era a intenção do autor. O legal é poder ver essa desconstrução, que apesar de acontecer no decorrer do processo, ainda deixa os leitores mais atentos com um pé atrás, naquele sentimento misto de “te amo/te odeio”.

No mais, “Me Chame Pelo seu Nome” é um relato cru e visceral de um amor que ao mesmo tempo que é inocente, é também destruidor. Com muita poesia, filosofia e beleza, o romance de Elio e Oliver tem tudo para lhe conquistar e te levar em uma montanha-russa de sentimentos. Em alguns momentos vocês vão amar, em outros chorar, em outros sentir nojo ou talvez ódio, a imprevisibilidade desse livro é absurda, assim como é a vida, e este é só um dos motivos que vale a pena vivênciá-lo, pois como diz o pai de Elio: a vida é só uma.

A abstinência pode ser uma coisa terrível quando não nos deixa dormir à noite, e ver que as pessoas nos esqueceram antes do que gostaríamos de ser esquecidos não é uma sensação melhor. Mas não sentir nada para não sentir alguma coisa… que desperdício!
P. 258
Comentários
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7 comentários:

  1. Não conhecia o livro ou o filme (tou meio desligada do Oscar esse ano) mas pela resenha fiquei com a sensação de que teria dificuldades na leitura por não conseguir focar em narrativas poéticas ou subjetivas, mesmo sendo em uma história de romance que é um dos meus gêneros preferidos. Acredito que o filme seria mais indicado no meu caso. Vou dar uma conferida depois! ;)

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  2. Tácio!
    Bem, interessante ver como as pessoas tem opiniões diferentes sobre uma mesma obra.
    Li algumas resenhas que falavam que era sensível, um amor verdadeiro e ainda tunha o apoio da família, você já dia que é um relato cru e visceral e que em alguns trechos, pode até dar nojo e ódio.
    E agora que quero ler mesmo para poder tirar minhas próprias conclusões.
    Pelo visto a adaptação foi muito melhor.
    Vamos ver se o filme ganhará algum Oscar hoje.
    Desejo um mês mais que abençoado, carregadinho de luz e paz e uma semana esplendorosa!
    “Acredite, existem pessoas que não procuram beleza, mas sim coração.” (Cazuza)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA MARÇO: 3 livros + vários kits, 5 ganhadores, participem!
    BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

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  3. Heey,

    Não conhecia o livro nem o filme,não é um livro que me chama tanta atenção mas eu leria pelo filme e por esses quotes maravilhosos.

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  4. Tácio,

    Eu estou a semanas vislumbrada, querendo ler esse livro e assistir a adaptação. Quando vi o trailer desse livro, foi amor à primeira vista. Eu tive uma sensação gostosa.
    E não, ainda não li, ainda não assisti, e sei que preciso fazer isso em breve.

    Adorei tua resenha e obrigada por instigar ainda mais a minha curiosidade em conferir as obras!

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  5. O livro tem uma trama forte, onde os personagens passam por vários desafios, o primeiro deles, pelo que entendi, seria o de se tolerarem!! Um romance que vai evoluindo aos poucos e acho que encanta o leitor, eu já quero ler esse livro e assistir ao filme!!

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  6. Eu fiquei completamente profundamente apaixonada pelo livro e eu ainda não conferi adaptação que teve para os cinemas mas eu fiquei muito feliz em ver que o livro ganhou premiações no Oscar adoro livros com temática LGBT E esse tem cara de ser maravilhoso

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  7. Não assisti o filme ou li o livro, mas fiquei super empolgada por essa bela resenha a fazer os dois agora mesmo!

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