20 de abr de 2018


[Resenha] O Ódio Que Você Semeia - Angie Thomas

Ficha Técnica 

Título: O Ódio Que Você Semeia
Título Original: The hate u give
Autor: Angie Thomas
ISBN: 978-85-0111-081-7
Páginas: 378
Ano: 2017
Tradutor: Regiane Winarski
Editora: Galera Record
Starr aprendeu com os pais, ainda muito nova, como uma pessoa negra deve se comportar na frente de um policial. Não faça movimentos bruscos. Deixe sempre as mãos à mostra. Só fale quando te perguntarem algo. Seja obediente. Quando ela e seu amigo, Khalil, são parados por uma viatura, tudo o que Starr espera é que Khalil também conheça essas regras. Um movimento errado, uma suposição e os tiros disparam. De repente o amigo de infância da garota está no chão, coberto de sangue. Morto. Em luto, indignada com a injustiça tão explícita que presenciou e vivendo em duas realidades tão distintas (durante o dia, estuda numa escola cara, com colegas brancos e muito ricos - no fim da aula, volta para seu bairro, periférico e negro, um gueto dominado pelas gangues e oprimido pela polícia), Starr precisa descobrir a sua voz. Precisa decidir o que fazer com o triste poder que recebeu ao ser a única testemunha de um crime que pode ter um desfecho tão injusto como seu início. Acima de tudo Starr precisa fazer a coisa certa. Angie Thomas, numa narrativa muito dinâmica, divertida, mas ainda assim, direta e firme, fala de racismo de uma forma nova para jovens leitores. Este é um livro que não se pode ignorar. 

Resenha

Há algum tempo eu tive uma conversa com um amigo e ele perguntou por que eu leio certos tipos de livros com temas que não são da minha vivência. Minha resposta foi que eu preciso ler pra entender as coisas que eu não vivo e que conhecer outras realidades é o primeiro passo pra ser mais empática com pessoas que enfrentam problemas diferentes dos meus. Por isso eu me empenho tanto em ler sobre personagens negros, LGBT, com deficiência ou que não possuem todos os privilégios que eu tenho. Por isso O ódio que você semeia me interessou tanto. E cada página deste livro é um tapa na cara.


A história da Starr é narrada no presente e em primeira pessoa. A gente passa o livro inteiro dentro da cabeça dele e sabe como ela se sente em relação a tudo o que acontece, o que é ainda mais devastador. Com o nome que Tupac Shakur teria dado a uma filha caso tivesse tido a oportunidade, a protagonista é uma adolescente negra que estuda numa escola particular apesar de morar num bairro periférico. Quando a gente encontra a Starr pela primeira vez, ela está numa festa com amigos quando acontece um tiroteio e ela vai embora com Khalil, seu amigo de infância. No meio do caminho pra casa, eles são abordados por um policial que, numa abordagem completamente equivocada, atira em Khalil, matando o rapaz na frente da amiga.

A cena é visceral. Apesar de a sinopse ter me avisado da morte de Khalil, eu passei várias páginas torcendo pra que nada daquilo acontecesse. Porque é o tipo de coisa que não deveria acontecer na vida de ninguém. Nenhum adolescente deveria ver um amigo ser morto de forma tão brutal e por um motivo tão estúpido. É um momento chocante e revoltante demais.

O leitor segue a Starr pelas semanas seguintes, enquanto ela é testemunha anônima no inquérito a respeito da morte de Khalil, tendo que manter sua identidade em segredo por medo de retaliação por parte de policiais. Além disso ela ainda precisa voltar para o colégio e lidar com colegas que não sabem o inferno pelo qual ela passou. Alguns desses colegas não percebem como estão sendo racistas e tornam a situação ainda pior.

O luto por Khalil envolve uma série de conflitos muito particulares neste livro. Será que o rapaz estava ligado a uma das gangues de traficantes do bairro? E, se ele estava, isso justifica sua morte? Starr deveria vir a público com os detalhes daquela noite? Por que a mídia se recusa a chamar a morte de Khalil de assassinato? O que fazer quando os moradores de um bairro tem tanto medo da polícia quanto dos bandidos locais?


O livro é muito eficaz em criar empatia com os conflitos da Starr, uma garota gentil, inteligente, que gosta de jogar basquete e é super cuidadosa com sua coleção de tênis, mas que precisa estar sempre atenta ao seu tom de voz pra não ser considerada “a garota negra irritada” e esconde da família que namora um garoto branco. Star precisa lidar com questões raciais que a maioria dos seus colegas nem imagina, e isso é parte do problema. Além da protagonista, meus personagens favoritos são a mãe da Starr, uma enfermeira gentil e desbocada que bota ordem na família e é a pessoa mais compreensiva que já existiu, e o Chris, o namorado amorzinho que descobre que as suas boas intenções (e suas maratonas de Um maluco no pedaço) não são o suficiente pra lidar com as complicações de viver numa sociedade racista. Ao longo da história, outros coadjuvantes também ganham espaço pra se desenvolver de forma significativa, como DeVante e o Tio Carlos.

O título vem de um vídeo do Tupac em que ele explica o que significa THUG LIFE: a sigla pra “The Hate U Give Little Infants Fucks Everybody” (“o ódio que você dá a criancinhas fode com todo o mundo”, em tradução livre), que o que a sociedade dá às crianças volta pra assombrar a todos depois. Se as crianças recebem ódio, desprezo e péssimas condições de se desenvolver, elas se tornam adultos ruins que vão causar dano à sociedade no futuro. Muito do livro é inspirado na trajetória do Tupac, inclusive a bandana que a Starr usa na capa é uma referência à bandana do Tupac.

Esse é um livro bem difícil de ler em muitos momentos. É sofrido e revoltante e muito relevante pro momento em que a gente vive, em que pessoas negras ainda são mortas de forma horrível e por motivos absurdos e continuam sem justiça. Não posso falar sobre como esse livro é importante pra pessoas negras, só como ele foi importante pra mim. E eu acredito que continua sendo necessário entender as histórias de outras pessoas pra que a gente não cometa as mesmas injustiças de novo. 

P.S.: O filme baseado no livro está em processo de pós-produção e ainda não tem data de lançamento.
Comentários
2
Compartilhe

2 comentários:

  1. Coloquei esse livro na lista de desejados desde logo cedo, depois de ter visto uma breve recomendação em um canal literário.
    Ler a resenha me deixou com ainda mais interesse, pois a resenha me permitiu conhecer a proposta do livro ao jogar nas páginas uma narrativa desafiadora. Além disso, acredito que o tema seja super bem discutível, por abranger uma realidade por vezes tão ignorada pela sociedade.

    ResponderExcluir
  2. Acho que é super importante lermos sobre diversos temas. Lermos sobre personagens que se parecem com a gente, personagem que não se parece, problemas psicológicos, físicos ou situações de vida bem diferente. Acredito que nos ajuda a entender um pouco mais sobre as coisas e ter essa empatia. Quando li a sinopse do livro fiquei bem interessada, vi várias críticas positivas, gostei que é em primeira pessoa, agora algo que me deu uma desanimada é que o livro tem várias referências a Harry Potter, eu nunca li e nem vi todos os filmes, acho que posso acabar achando isso um pouco chato.

    ResponderExcluir

Seu comentário é sempre bem-vindo e lembre-se, todos são respondidos.
Portanto volte ao post para conferir ou clique na opção "Notifique-me" e receba por e-mail.
Obrigada!

 
imagem-logo
De Tudo um Pouquinho - Copyright © 2016 - Todos os direitos reservados.
Layout e Programação HR Criações