11 de jan de 2019


[Resenha] Eu Sei Por Que o Pássaro Canta na Gaiola - Maya Angelou

Ficha Técnica 

Título: Eu Sei Por Que o Pássaro Canta na Gaiola
Título Original: I Know Why the Caged Bird Sings
Autor: Maya Angelou
ISBN: 978-85-8246-714-5
Páginas: 335
Ano: 2018
Tradutor: Regiane Winarski
Editora: Astral Cultural
RACISMO. ABUSO. LIBERTAÇÃO. A vida de Marguerite Ann Johnson foi marcada por essas três palavras. A garota negra, criada no sul por sua avó paterna, carregou consigo um enorme fardo que foi aliviado apenas pela literatura e por tudo aquilo que ela pôde lhe trazer: conforto através das palavras. Dessa forma, Maya, como era carinhosamente chamada, escreve para exibir sua voz e libertar-se das grades que foram colocadas em sua vida. As lembranças dolorosas e as descobertas de Angelou estão contidas e eternizadas nas páginas desta obra densa e necessária, dando voz aos jovens que um dia foram, assim como ela, fadados a uma vida dura e cheia de preconceitos. Com uma escrita poética e poderosa, a obra toca, emociona e transforma profundamente o espírito e o pensamento de quem a lê.

Resenha

“Eu Sei Por Que o Pássaro Canta na Gaiola” é o mais conhecido trabalho literário da magnífica Maya Angelou. Caso você ainda não conheça Maya e suas múltiplas facetas, pode clicar aqui e conferir a resenha que fiz de “A Vida Não Me Assusta”, onde escrevi brevemente sobre sua vida e carreira.

Nesta narrativa, nós leitores iremos encontrar relatos autobiográficos de uma jovem Maya, desde o momento que foi abandona aos três anos de idade por seus pais para ser criada por sua avó paterna em uma pequena cidade do Arkansas. A partir deste momento, iremos descobrir fatos importantes sobre Maya, de sua infância até a adolescência – momento até onde a história do livro lhe acompanha –, e como tais fatos ajudaram a moldar a voz e força que é Angelou, mesmo após a sua morte em 2014.

A sujeira nos vestidos de algodão das garotas continuava nas pernas, nos pés, nos braços e nos rostos, deixando todas parecidas. Os cabelos oleosos e sem cor caíam sem pentear, com uma finalidade suja. Eu me ajoelhei para vê-las melhor, para me lembrar de todas para sempre. As lágrimas que escorreram até meu vestido fizeram manchas escuras nada surpreendentes e deixaram o pátio da frente borrado e ainda mais irreal. O mundo tinha respirado fundo, e estava tendo dúvidas sobre continuar a girar.
P. 47

Primeiramente, Maya era extremamente dependente e apaixonada por seu irmão mais velho, Bailey. Ambos tiveram uma relação muito bonita, até porque, entre altos e baixos, a constância na vida deles era a existência de um e do outro. Notamos também como Maya sempre teve um ligação muito delicada com a sua mãe, Vivian Baxter, vínculo que serviu de plano de fundo para outra biografia de Maya – no total são cinco –, intitulada “Mamãe & Eu & Mamãe”, que fascinantemente é uma leitura complementar a esta que vos resenho, pois engloba outra fase da vida de Angelou.

Outra característica importante de Maya, algo que ajudou a esculpir a pessoa que veio a se tornar, foi sua paixão pela literatura. Desde cedo, Maya era apaixonada por livros e uma grande devoradora dos clássicos. Em certo momento da narrativa ela chega a citar sua paixão secreta por Shakespeare, que tinha que ser discreta, pois sua avó nunca permitiria que ela se apaixonasse por um homem branco – mesmo este sendo um autor já falecido.

Durante dias, o Mercado foi uma terra estrangeira, e nós éramos todos imigrantes recém-chegados. Bailey não falou, sorriu nem pediu desculpas. Seus olhos estavam tão vazios que parecia que a alma dele tinha fugido, e nas refeições eu tentava dar os melhores pedaços de carne para ele e a maior porção de sobremesa, mas ele recusava tudo.
P. 143

A escrita de Angelou é visceral, mas ao mesmo tempo convidativa. Sua realidade não era a personificação de um arco-íris, porém acompanhar seus doloros trajetos sabendo a pessoa quem Maya se tornou, de certo modo acende no leitor uma chama acalentadora. As descrições são cruas e as situações narradas carregam em sua maioria um peso que atinge o leitor direto no peito. E isto é bom, pois há reflexão, há conexão com a leitura, há a necessidade de se discutir o que se está lendo, e assim, as palavras - e vida de Maya - vão além destas páginas, para que, talvez, de alguma forma, essa realidade vivida por ela, não seja a realidade de outros jovens.

Fazia muitos anos que uma edição de “Eu Sei Por Que o Pássaro Canta na Gaiola” não estava disponível no Brasil, o que é uma pena. Até onde eu saiba, apenas 3 obras de Maya foram publicadas ou republicadas no país, todas em 2018, e é bom ver que as editoras estão dando valor a este ícone que foi Maya, e permitindo que sua voz ecoe ainda mais sobre os leitores brasileiros. A única coisa que eu não gostei dessa edição da Astral Cultural foi a capa: não gosto das fontes, não gosto da imagem, não gosto da cor… Poderiam ter caprichado mais nisso, pois o livro merecia um tratamento mais do que especial.

Nós éramos empregadas e fazendeiros, quebra-galhos e lavadeiras, e qualquer coisa maior que aspirássemos ser era uma farsa e uma presunção.
P. 211

Apesar da capa que não me agrada, a edição tem muitos pontos positivos, tais como um prefácio por Oprah Winfrey e uma introdução por Djamila Ribeiro, além da excelente tradução da Regiane Winarski. Para quem não conhece a força que foi – e continua sendo – Maya Angelou, este livro é um excelente começo para tal. Para quem já conhece, é a oportunidade de finalmente ter na estante uma das autobiografias norte-americanas mais importantes já escritas. Que publiquem mais Maya no Brasil, porque seu talento nunca é demais! 

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P.S.: Se quiser adicionar esse livro na sua lista de leitura do Skoob basta clicar na capa que você será redirecionado para a página do livro no Skoob 😉
Comentários
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2 comentários:

  1. Uma pena um livro com um enredo tão gostoso e ao mesmo, libertador a quem o Lê, não tenha sido de fato, mas cuidado pela Editora!Merecia realmente uma capa mais bonitinha, fonte melhor e claro, diagramação de acordo.
    Uma pena também que as obras desta mulher não estejam todas por aqui ainda. Lamentável que isso ainda aconteça.
    Sei bem pouco da vida dela, pouco mesmo, por isso, estou aqui encantada com tudo que li e vi acima e sem sombra de dúvidas, quero poder ter e ler esta obra o quanto antes!!!
    Beijo

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  2. Tácio!
    Tão bom podermos nos deparar com um livro que traz uma biografia bem escrita, embora com uma história de vida dolorida e árdua como a de Maya!
    As difíceis e algumas agradáveis relações familiares que resultou em quem ela foi, fantástico.
    cheirinhos
    Rudy

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