19 de mai de 2019


[Resenha] Um Casamento Americano - Tayari Jones

Ficha Técnica 

Título: Um Casamento Americano
Título Original: An American Marriage
Autor: Tayari Jones
ISBN: 978-85-8041-946-7
Páginas: 266
Ano: 2019
Tradutor: Alves Calado
Editora: Arqueiro
Os recém-casados Celestial e Roy são a personificação do sonho americano e do empoderamento negro. Mas um dia os dois são separados por circunstâncias imprevisíveis: Roy é condenado a doze anos de prisão por um crime que Celestial sabe que ele não cometeu. Mesmo impetuosa e independente, Celestial é dominada pelo desamparo e busca conforto nos braços de um amigo de infância. Quando a condenação de Roy é anulada repentinamente depois de cinco anos, ele sai da prisão pronto para retomar a vida com a esposa. Um casamento americano lança um olhar perspicaz ao coração e à mente de três pessoas unidas e separadas por forças além do seu controle, e que precisam lidar com o passado enquanto seguem – com esperança e dor – em direção ao futuro.

Resenha


Tayari Jones tem em suas mãos um hit. Lançado nos EUA em 2018 e recentemente no Brasil pela Arqueiro, “Um Casamento Americano” foi elogiado por ninguém mais ninguém menos do que Barack Obama e Oprah Winfrey – fazendo até parte de seu cultuado Oprah’s Book Club. No topo disso tudo, a obra foi recentemente incluída na lista do Women’s Prize na categoria de Ficção.

“Um Casamento Americano” narra a história de Celestial e Roy, recém casados e que moram na cidade de Atlanta, sendo eles uma excelente representação de jovens americanos em ascensão na cidade grande. Porém, durante uma viagem até o interior de Louisiana para visitar os pais de Roy, o inesperado acontece: ele é acusado de ter feito uma atrocidade e então é condenado a 12 anos por um crime que não cometeu.

Desta forma, Roy e Celestial precisarão lidar com as consequências desta injusta condenação. Consequências estas que vão desde a relação conturbada entre Celestial e sua sogra, como a forma que Celestial passará a expressar sua arte, e principalmente como ambos irão sustentar um casamento basicamente através de cartas e curtas visitas na cadeia. Será que o amor dos dois é forte o suficiente para sobreviver 12 anos desta forma? Como a equivocada – e preconceituosa – decisão do Estado irá modificar a vida destes jovens? Seriam Celestial e Roy capazes de se manterem intactos perante tal injusto destino?
Eu acreditava piamente que sairia do tribunal com meu marido a meu lado. Seguros em nossa casa, diríamos às pessoas que nenhum negro está realmente seguro nos Estados Unidos.
P. 43
A autora Tayari Jones tem um escrita poética, forte e extremamente incômoda. Cada palavra é escolhida para deixar o leitor incomodado, reflexivo e com raiva. Suas personagens são distintas ao ponto de não serem nem um pouco carismáticas, porém a urgência dos debates são muito mais amplas e importantes do que carisma. A maior crítica do livro é ao racismo e ao machismo, e como eles moldam toda uma sociedade que continua perdurando tais características, geração após geração.

plot principal claramente gira em torno da prisão de Roy, que sabemos não ter cometido nenhum crime, sendo a cor da sua pele determinante para sua condenação. Porém, na minha opinião, a questão racial no decorrer do livro fica bastante de lado, para dar espaço a personagens e falas EXTREMAMENTES machistas, que me incomodaram ao ponto de eu ter que ir parando a leitura de tanta raiva que eu ficava.

Chegou um ponto do livro que todos personagens da narrativa tinham um comportamento ou fala machista. O incômodo foi crescendo em mim e a raiva também, não estava mais aguentando ler tantas falas absurdas. Por um tempo fiquei na dúvida se era uma jogada intencional da autora, e ao chegar ao desfecho da obra, tive certeza que cada fala tóxica foi escolhida a dedo, para que nós leitores pudéssemos compreender melhor toda a atmosfera daquelas personagens, e como o machismo as moldavam.
A prisão, como você sabe, é uma coisa muito segregadora. Você está enfrentando uma sentença longa e, enquanto eu trabalho para encontrar uma solução, insisto que não se desconecte das pessoas que o fazem se lembrar da vida que já teve e que deseja ter de novo.
P. 85
Se tratando de construção, o livro tem uma bem interessante. De início os fatos são narrados por capítulos alternados entre a visão de Roy e Celestial, sendo assim capítulos longos. Após a prisão, a narrativa é feita exclusivamente através de cartas por um tempo. Para finalizar, o primeiro esquema retorna, mas desta vez muito mais ágil, dando ao leitor capítulos mais curtos e adicionando mais um narrador: Andre, amigo de infância de Celestial e colega de faculdade de Roy. 

“Um Casamento Americano” foi uma leitura agradável de início, que ao passo que se desenrolou, tornou-se cada vez mais pesada e irritante. A irritação porém, é proveniente de indignação, e esse caminho escolhido por Tayari Jones é perigoso, pois alguns leitores não conseguirão entender e aceitar o motivo da história seguir tal rumo e colocarão a qualidade da obra em cheque. Eu gostei da direção que a história tomou, e apesar de minha indignação com a mesma, eu compreendi a necessidade da autora em questionar e inquietar seu público, afinal, há um objetivo e crítica nesta obra, e como sabemos, racismo e machismo não são relacionados com adjetivos felizes.
Às vezes fico me perguntando se ela me reconheceria agora. Será que alguém que me conhecia na época me reconheceria hoje? Sendo inocente ou não, a prisão muda a pessoa, transforma a gente em culpado.
P. 121

P.S.: Se quiser adicionar esse livro na sua lista de leitura do Skoob basta clicar na capa que você será redirecionado para a página do livro no Skoob 😉
Comentários
1
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Um comentário:

  1. Estou doida para conferir este livro! Lembra e muito Se a Rua Baele Falasse, que traz também a prisão injusta e o jovem casal tendo que enfrentar tantos problemas no decorrer da história.
    Mas claro, há as partes diferentes e é isso que de certo modo, torna duas histórias totalmente distintas!
    Aqui há este incômodo necessário, um jeito de acordar o leitor, meio que na porrada, para esta questão da injustiça pela cor da pele, algo que sempre existiu,infelizmente!
    E acho que traz um questionamento importante: é possível retomar a vida de onde ela parou?
    Com certeza, quero muito poder ler!
    Beijo

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