19 de out. de 2019


[Resenha] O Labirinto do Fauno - Cornelia Funke

Ficha Técnica 

Título: O Labirinto do Fauno
Título Original: Pan's labyrinth: the labyrinth of the faun
Autor: Cornelia Funke
ISBN: 978-85-510-0519-4
Páginas: 320
Ano: 2019
Tradutor: Bruna Beber
Editora: Intrínseca
Quando estreou nos cinemas, O Labirinto do Fauno encantou público e crítica com sua história que mesclava sonho e realidade, trazendo para o universo da fantasia o cruel cotidiano da Espanha fascista de Franco. Mais de dez anos depois, a produção permanece conquistando fãs e mostrando que boas histórias são atemporais. Nesta edição mais do que especial, o escritor, diretor e roteirista mexicano Guillermo del Toro — a mente por trás do filme e um dos artistas mais inventivos dos últimos tempos — se une a Cornelia Funke, premiada escritora de contos de fadas modernos e autora da trilogia Mundo de Tinta, para narrar a jornada de uma menina pelo Reino dos Homens e pelo Reino Subterrâneo. No ano de 1944, Ofélia e a mãe cruzam uma estrada de terra que corta uma floresta longínqua ao norte da Espanha, um lugar que guarda histórias já esquecidas pelos homens. O novo lar é um moinho de vento tomado pela escuridão e pela crueldade do capitão Vidal e seus soldados, dispostos a tudo para exterminar os rebeldes que se escondem na mata. Mas o que eles não sabem é que a floresta que tanto odeiam também abriga criaturas mágicas e poderosas, habitantes de um reino subterrâneo repleto de encantos e horrores, súditos em busca de sua princesa há muito perdida. Uma princesa que, segundo os sussurros das árvores, finalmente retornou ao lar. No livro, a narrativa de Ofélia é intercalada com ilustrações e contos de fadas inéditos, baseados em elementos-chave de O Labirinto do Fauno. A obra é uma impactante ode ao poder das histórias, seja em imagens ou palavras, e a sua capacidade de transformar a realidade a nossa volta.

Resenha

Os contos haviam lhe ensinado tudo sobre o mundo.
P. 15
Os contos de fadas como a gente conhece hoje são versões suavizadas das histórias originalmente contadas para crianças nos séculos XVIII (compiladas por Andersen) e XIX (compiladas pelos Irmãos Grimm). As narrativas eram muito mais cautionary tales (contos de advertência, em tradução livre), usadas para alertar as crianças dos perigos do mundo. Essa suavização, que retira elementos mais viscerais e substitui as tragédias por finais felizes, diminui o impacto que o alerta tem na função do conto e transforma tudo em só mais uma história bonitinha.

Quando a Chapeuzinho Vermelho não morre mais no final da história, perde-se a moral de que é extremamente perigoso falar com estranhos. Se João e Maria são abandonados na floresta pela madrasta e não a mãe, não se tem mais a noção de que algumas figuras maternas são ruins. Se a Pequena Sereia se casa com o príncipe, cria-se a ideia de que vale a pena abandonar toda a sua família a sua história e fazer um pacto com uma entidade maligna pra ir atrás de uma incerteza.

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Na contramão da suavização dos contos de fada vem Guillermo del Toro, vencedor do (merecidíssmo) Oscar de melhor diretor em 2018 por A Forma da Água. Mais de uma década antes, em 2006, o mexicano já tinha aterrorizado uma geração inteira com seu conto de fadas sinistro em O Labirinto do Fauno. O filme me causou um impacto imenso quando eu assisti pela primeira vez porque não tinha como não me conectar com a protagonista: Ofélia era uma criança órfã, solitária e que amava livros mais do que qualquer coisa (uma representação exata de quem eu era na época).

É difícil explicar para pessoas que não são órfãs o impacto que certas histórias (como O Labirinto do Fauno, a trilogia Fronteiras do Universo e a saga Harry Potter) tem para gente. Elas dão vazão a um sentimento de vazio que fica guardado lá dentro e fazem a gente se sentir especial, nem que seja só um pouquinho. De repente, essa sensação de não-pertencimento é porque você é a princesa perdida de outro mundo ou o bruxo poderoso de uma outra sociedade. Você não se encaixa nessa realidade e se sente sozinho aqui porque seu lugar é outro e lá tem pessoas esperando por você, elas querem você como as pessoas aqui parecem não querer.

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Esse sentimento, tão comum pra mim, é o que guia Ofélia na sua jornada através do labirinto. Uma criança rejeitada pelos adultos à sua volta, presa numa realidade de guerra e sofrimento, que encontra no conto da princesa perdida uma forma de se sentir amada e querida. Ofélia embarca na missão de se provar como a heroína da lenda para finalmente fazer parte de uma família novamente, para se afastar de um mundo onde as pessoas não se importam em explicar os fatos ou seus motivos para ela. Não é incomum que crianças que passaram por eventos traumáticos criem mundos fantasiosos pra tentar lidar com a dor.

Esse mundo fantástico, em que magia é real e fadas existem e seus pais te amam, continua sendo sombrio e cheio de mistério e sombras. Mesmo as criaturas fantásticas não são como a gente imagina, porque a realidade dá um jeito de se infiltrar até nas nossas fantasias. A história de del Toro recupera as raízes sombrias dos contos ao incorporar consequências graves em todas as ações de Ofélia. Tudo tem um preço, até no reino da magia.


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Fazendo o caminho contrário da maioria das adaptações, aqui o filme virou livro (assim como aconteceu com A Forma da Água), adaptado por Cornelia Funke, escritora alemã autora de O Senhor dos Ladrões e a série Mundo de Tinta. A maior contribuição de Funke para o cenário é a criação de dez contos lindíssimos que conectam a origem do moinho em que se passa a história com os personagens secundários mais importantes. Meus favoritos são O Relojoeiro e O Alfaiate que fez um acordo com a morte. Os contos funcionam como uma excelente expansão do cenário, enriquecendo a história e tornando o livro mais que uma simples adaptação do filme.

A edição em capa dura é lindíssima, com ilustrações que captam bem o clima da narrativa e um acabamento primoroso. Uma excelente leitura, tendo o leitor assistido o filme ou não (apesar de eu recomendar muito que assista).

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Comentários
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Um comentário:

  1. eu vi o filme há anos atrás (e com certeza quero rever) e foi um filme que me incomodou com esse universo mais sombrio, mas que gostei muito, tem várias metaforas incríveis e acho que o livro tbm deve ser excelente

    www.tofucolorido.com.br
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