27 setembro, 2020


[Resenha] Cartas para Martin - Nic Stone

Ficha Técnica 

Título: Cartas para Martin
Título Original: Dear Martin
Autor: Nic Stone
ISBN: 978-85-510-0665-8
Páginas: 256
Ano: 2020
Tradutor: Thaís Paiva
Editora: Intrínseca
Justyce McAllister é um garoto de dezessete anos com um futuro brilhante pela frente. É um dos melhores alunos de uma prestigiada escola de Atlanta, tem uma mãe amorosa e um melhor amigo incrível. No entanto, um episódio de violência policial traz à tona que a distância entre ele e seu futuro é quase um abismo. Porque Justyce McAllister é negro, e isso significa que, muitas vezes, é julgado pela cor de sua pele. Ao ser agredido e detido injustamente, o olhar de Justyce desperta para um novo mundo, um lugar solitário em uma sociedade que insiste em vê-lo como ameaça ou como promessa de fracasso. Ele se dá conta, então, de que não pode mais fingir que não tem nada errado e decide iniciar um projeto: escrever cartas para Martin Luther King Jr., um dos mais importantes ativistas políticos pelos direitos dos negros, símbolo da luta contra a segregação racial nos Estados Unidos, morto em 1968. Ao tentar aplicar os ensinamentos de Luther King em sua vida, Justyce começa a trilhar um caminho para entender não só como deve reagir diante das injustiças, mas que tipo de pessoa ele quer ser. Em meio a questões familiares, desentendimentos com os amigos e complicações da vida amorosa, nas cartas ele expõe suas dúvidas, sua angústia, sua revolta e a percepção clara de que a sociedade não é tão igualitária quanto deveria. No livro de estreia de Nic Stone, vemos Justyce passar pelos desafios da adolescência, amadurecer e encarar o racismo que tanto afeta sua existência. Comovente e extremamente necessário, Cartas para Martin é um relato sobre ser um jovem negro e sobre o direito inalienável de existir. Um livro impossível de ignorar.

Resenha

Pode até não haver mais bebedouros separados para as pessoas ‘de cor’, e racismo hoje em dia é crime, mas, se eu ainda posso ser forçado a sentar no chão de concreto com algemas apertando meus pulsos mesmo sem ter feito nada errado, é bem óbvio que temos um problema. Que a sociedade não é igualitária quanto as pessoas gostam de dizer.
P. 21 

Tão importante quanto olhar para o passado e entender como a gente chegou até aqui é olhar para o que acontece agora e perceber o que pode ser melhorado. E tendo em vista os casos mais recentes de violência policial nos EUA, Cartas para Martin é um livro fundamental para entender não as estatísticas mas os sentimentos envolvidos nesse tipo de tragédia. Uma realidade que não está tão diferente da nossa. 

A história é narrada do ponto de vista de Justyce, um dos poucos alunos negros em uma escola particular de prestígio. Ele mora no alojamento, um pouco longe do bairro onde cresceu, e tem excelentes notas. Jus faz parte da equipe de debate e pretende entrar para uma universidade importante. Só que estudar em uma boa escola e ser um aluno exemplar não torna ninguém imune à violência policial. Depois de um momento, como muitos outros na vida real, em que policiais interpretam uma cena fora de contexto e reagem de forma desproporcional, Jus é levado para delegacia.

Alguns dias depois do trauma ele se pega refletindo e começa a escrever cartas para o falecido reverendo Martin Luther King, na esperança de entender como ele via o mundo naquela época e qual o seu papel no mundo de agora. Jus tenta imaginar o que King faria em cada situação, ao mesmo tempo em que é confrontado com escolhas difíceis e tragédias inesperadas. 

Eu posso citar duas cenas em especial que não envolvem spoilers e que são profundamente incômodas no livro. A primeira é a interação com o policial logo no primeiro capítulo. A abordagem é tão errada e agressiva que até quem nunca passou por uma situação parecida consegue entender a gravidade da coisa. Me lembrou muito a cena em O ódio que você semeia, que é terrível de tão bem escrita. A segunda cena é uma discussão com um colega de classe que se recusa a admitir que racismo ainda existe. É irritante porque infelizmente muita gente ainda pensa assim e esse é um pensamento que fomenta muitas das desigualdades que são mantidas pela nossa sociedade. 

Além de Justyce, dois personagens marcantes são SJ, parceira do time de debate e uma das poucas pessoas razoáveis nesse livro, e Manny, melhor amigo de Jus. Manny é um personagem complexo cujo bom-senso só funciona para os relacionamentos do amigo. Ele aconselha Jus a terminar com a namorada porque o relacionamento deles não é saudável mas não consegue enxergar que sua amizade com alguns dos colegas também é problemática. 

O livro fica ainda mais angustiante no final chocante da parte um, que torna tudo ainda mais difícil para os personagens. Cartas para Martin é curtinho, dá para ler em poucas horas, e é extremamente relevante para o momento que a gente está vivendo agora. É um ótimo livro para refletir sobre racismo estrutural, sobre violência policial e sobre o que significa ser negro na nossa sociedade. Principalmente depois dos protestos que ainda estão acontecendo pelas mortes de George Floyd e Breonna Taylor (cujos assassinos ainda não foram presos), só para citar os mais recentes. 

Bem escrito, com personagens simpatizáveis e com um tema que pode estimular muito debate e conversas necessárias. Acho uma leitura válida principalmente para adolescentes que podem se identificar com um ou mais personagens do livro. 

P.S.: Se quiser adicionar esse livro na sua lista de leitura do Skoob basta clicar na capa que você será redirecionado para a página do livro no Skoob 😉
Comentários
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Um comentário:

  1. Tive conhecimento desse livro nessa semana que terminou e não vejo a hora de poder ter ele em mãos!
    Parece aquele tipo de livro que é tão necessário nesse mundo que vivemos, nesse momento tão caótico.
    O racismo nunca deixou de existir...por isso a importância de se lutar diariamente contra tudo isso!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na flor

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